02 · Matemática Discreta
Resumo em 30 segundos
A disciplina inteira é escrita na linguagem de conjuntos, relações e funções. Um autômato é uma 5-upla; a função de transição é uma função ; o “zero ou mais passos” das derivações é o fecho reflexivo-transitivo ; e a minimização de autômatos (que vem depois) usa classes de equivalência e partições. Esta aula é a caixa de ferramentas.
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Slide 2: conjuntos e seus tipos
Conjunto é uma coleção não ordenada e sem repetição. Então .
| Tipo | Definição do slide | Exemplo |
|---|---|---|
| Finito | limites conhecidos e determinados | |
| Infinito | não é possível determinar os limites | |
| Contável | dá para associar os elementos a | , |
| Incontável | ver alerta abaixo |
Cuidado com a definição de "incontável" do slide 2
O slide diz que incontável é quando “sempre é possível definir um novo elemento entre dois elementos quaisquer”. Isso descreve um conjunto denso, não um conjunto incontável. Os racionais são densos (entre dois racionais sempre há outro) e mesmo assim são contáveis. A definição usual é: incontável = infinito e não existe bijeção com (exemplo clássico: , pelo argumento da diagonal de Cantor). Vale conferir com o professor qual definição ele cobra.
Os dois livros confirmam: o Menezes diz que e são contáveis e que os irracionais e não são (Exemplo 11, p. 13). O Ramos prova que é enumerável e que não é, com o argumento da diagonal (Exemplos 1.54 e 1.55, p. 52 a 54).
Slide 3: simbologia
- Conjuntos em maiúsculas (), elementos em minúsculas ().
- (pertence), (não pertence).
- Conjunto universo ou alfabeto: ou .
- Conjunto vazio: .
Slides 4 e 5: produto cartesiano
Exemplo do slide, com e :
- Repare: (os pares são ordenados), mas nos dois casos.
Extensões:
- conjuntos: = conjunto de -uplas.
- Potência: ( vezes), com . Exemplo: com tem pares.
Onde isso aparece no curso
A função de transição de um AFD tem domínio : cada par (estado, símbolo) precisa de um destino. É por isso que a tabela de transição tem uma linha por estado e uma coluna por símbolo. Ver 04 - Autômatos Finitos Determinísticos > Tabela de transições.
Slide 6: relações
Uma relação em é qualquer conjunto de -uplas: . O caso mais usado é a relação binária em um conjunto : .
Slides 7 e 8: funções
Uma função é uma relação em que cada tem exatamente um com .
- Unicidade: e .
- Notações: , , .
- Domínio , codomínio , contradomínio (imagem) .
Exemplo do slide 8, função sucessor em : , ou como conjunto de pares .
Detalhe de notação no slide 8
O slide escreve “suc: ”. O esperado é . A função é um subconjunto de , mas a assinatura se escreve com a seta.
Função × relação no curso
Slide 9: injeção, sobrejeção e bijeção
| Tipo | Condição | Intuição |
|---|---|---|
| Injetora | cada é imagem de no máximo um | não há “colisão” |
| Sobrejetora | cada é imagem de pelo menos um | cobre todo o codomínio |
| Bijetora | injetora e sobrejetora | correspondência um para um |
Nas sobrejeções e bijeções, codomínio e contradomínio coincidem.
Slides 10 a 12: conjuntos enumeráveis
é enumerável se é vazio ou se existe uma sobrejeção . Aí a lista passa por todos os elementos de (repetições são permitidas).
Fatos (os slides 11 e 12 são idênticos):
- Todo conjunto finito é enumerável.
- Um conjunto infinito é enumerável se e somente se existe uma injeção , ou, equivalentemente, uma bijeção .
- e são enumeráveis. Para :
- Entre dois conjuntos infinitos enumeráveis sempre existe uma bijeção.
- Subconjunto de enumerável é enumerável.
Complemento: por que isso importa para linguagens
é enumerável: liste as palavras por tamanho e, dentro do mesmo tamanho, em ordem alfabética (). Como toda linguagem é subconjunto de , toda linguagem é enumerável. Já o conjunto de todas as linguagens sobre é , que é incontável. Como só existem enumeravelmente muitos autômatos e gramáticas, conclui-se que existem linguagens que nenhum autômato reconhece. Esse argumento é padrão na teoria da computação; os slides não o apresentam.
Slides 13 e 14: propriedades de relações binárias
Notação: significa .
- Reflexiva: para todo .
- Simétrica: .
- Transitiva: e .
- Equivalência: reflexiva + simétrica + transitiva.
Tabela do slide 14 em (conferi por programa em uma amostra de ):
| Reflexiva | Simétrica | Transitiva | |
|---|---|---|---|
| não | não | sim | |
| sim | não | sim | |
| sim | sim | sim | |
| não | sim | não |
Por que não é transitiva?
e , mas é falso. Um contraexemplo basta.
Slides 15 a 17: composição de relações
Ordem de leitura nos slides
Nos slides, significa “primeiro , depois ”, e por isso . Muitos livros usam a ordem contrária ( para “primeiro ”). Na prova, siga a convenção do professor, e em outros materiais confira qual ordem o autor usa.
O Menezes usa a ordem contrária à dos slides: na Definição 1.11 (p. 11), , ou seja, aplica primeiro . O que o slide escreve como , o Menezes escreveria .
Exemplo do slide 16 (conferido por programa): e .
Como calcular na mão: para cada par de , procure pares de que começam em .
| gera | ||
|---|---|---|
| (1,2) | (2,1) | (1,1) |
| (1,3) | (3,2) | (1,2) |
| (1,4) | (4,3) | (1,3) |
| (2,3) | (3,2) | (2,2) |
| (2,4) | (4,3) | (2,3) |
| (3,4) | (4,3) | (3,3) |
Resultado: e . Composição não é comutativa.
Slide 17: quando e são funções, a composição também é função. Com e : e .
Potências de relações e fechos R* e R+
Slides 18 a 21. Definição recursiva:
quer dizer “dá para ir de até em exatamente passos de ”.
Fatos: é o elemento neutro da composição; ; potências da mesma relação comutam ().
Exemplo do slide 19 com e = “menor que” (conferido por programa):
| Potência | Pares | Leitura |
|---|---|---|
| (1,1),(2,2),(3,3),(4,4) | zero passos | |
| (1,2),(1,3),(1,4),(2,3),(2,4),(3,4) | um passo | |
| (1,3),(1,4),(2,4) | diferença de pelo menos 2 | |
| (1,4) | só 1 chega a 4 em 3 passos | |
| não há cadeias tão longas |
Fecho reflexivo-transitivo: (“zero ou mais passos”). É a menor relação que contém e é reflexiva e transitiva.
Fecho transitivo: (“um ou mais passos”).
No exemplo: (porque “menor que” já é transitiva) e , ou seja, a relação .
Onde R* e R+ voltam
Nas gramáticas, (“deriva em zero ou mais passos”) e (“um ou mais”) são exatamente e aplicados à relação “deriva em um passo”. E , da aula 01 seguem a mesma ideia. Ver 03 - Gramáticas Regulares > Derivações.
Slides 22 e 23: partições
Partição de é uma família de blocos tal que:
- nenhum bloco é vazio;
- a união dos blocos é ;
- blocos diferentes são disjuntos.
Exemplos com : , , , .
Exercício do slide 23: todas as partições de {a, b, c, d, e}
São 52 partições (esse número é o número de Bell ). Gerei e contei por programa. Agrupadas pelo formato dos blocos:
Formato Quantidade 5 1 4+1 5 3+2 10 3+1+1 10 2+2+1 15 2+1+1+1 10 1+1+1+1+1 1 Total 52 Formato 1+1+1+1+1: {a},{b},{c},{d},{e}
Formato 2+1+1+1 (escolha o par): {a,b} {a,c} {a,d} {a,e} {b,c} {b,d} {b,e} {c,d} {c,e} {d,e}, cada um com os outros três elementos sozinhos.
Formato 3+1+1 (escolha o trio): {a,b,c} {a,b,d} {a,b,e} {a,c,d} {a,c,e} {a,d,e} {b,c,d} {b,c,e} {b,d,e} {c,d,e}, com os outros dois sozinhos.
Formato 2+2+1 (escolha o elemento sozinho e divida os outros 4 em dois pares):
- sozinho e: {a,b}{c,d} · {a,c}{b,d} · {a,d}{b,c}
- sozinho d: {a,b}{c,e} · {a,c}{b,e} · {a,e}{b,c}
- sozinho c: {a,b}{d,e} · {a,d}{b,e} · {a,e}{b,d}
- sozinho b: {a,c}{d,e} · {a,d}{c,e} · {a,e}{c,d}
- sozinho a: {b,c}{d,e} · {b,d}{c,e} · {b,e}{c,d}
Formato 3+2 (escolha o trio, o resto vira par): {a,b,c}{d,e} · {a,b,d}{c,e} · {a,b,e}{c,d} · {a,c,d}{b,e} · {a,c,e}{b,d} · {a,d,e}{b,c} · {b,c,d}{a,e} · {b,c,e}{a,d} · {b,d,e}{a,c} · {c,d,e}{a,b}
Formato 4+1: {a,b,c,d}{e} · {a,b,c,e}{d} · {a,b,d,e}{c} · {a,c,d,e}{b} · {b,c,d,e}{a}
Formato 5: {a,b,c,d,e}
Estratégia para não se perder: organize por formato, como acima, e confira a contagem com combinações (, etc.).
Slides 24 e 25: classes de equivalência
Se é uma equivalência em , a classe de é (todos os elementos equivalentes a ). Sempre .
Exemplo do slide 25: , equivalência gerada por , , .
- Reflexividade acrescenta .
- Simetria acrescenta .
- Transitividade acrescenta .
Classes: , , .
flowchart LR subgraph C1["[a] = {a,b,c}"] a --- b --- c end subgraph C2["[d] = {d,e}"] d --- e end subgraph C3["[f] = {f}"] f end
Slides 26 a 28: conjunto quociente
é o conjunto das classes. No exemplo: .
Resultado central (as duas direções):
- Toda equivalência em gera uma partição (classes não vazias, cobrem , e duas classes diferentes são disjuntas; o slide 27 prova a disjunção usando simetria e transitividade).
- Toda partição gera uma equivalência (“estar no mesmo bloco”), e .
Onde isso volta
A minimização de AFD (conteúdo que costuma vir depois das aulas destes slides) agrupa estados “equivalentes” em classes. Cada classe vira um estado do autômato mínimo. Saber partição e classe de equivalência agora poupa trabalho depois.
Autoavaliação
1. Se |A| = 3 e |B| = 4, quantos elementos tem A × B? E quantas relações existem de A para B?
. Uma relação é qualquer subconjunto de , então existem relações.
2. Dê uma relação simétrica e transitiva que não seja reflexiva.
Em , . É simétrica e transitiva, mas falta .
3. Qual a diferença entre R* e R+?
inclui (zero passos, a identidade). começa em um passo.
Aprofundamento com os livros
Páginas das edições da sua pasta: Menezes 3ª edição (2000) e Ramos, José Neto e Vega (Bookman).
Função parcial × função total (isso importa para autômatos)
O Menezes separa os dois conceitos logo cedo (Definições 1.9 e 1.10, p. 10 e 11):
- Função parcial: cada elemento do domínio tem no máximo uma imagem. Pode haver elementos sem imagem. Exemplo do livro: a divisão em , que não é definida quando o divisor é 0.
- Função total (ou aplicação): função parcial definida para todos os elementos do domínio.
O Ramos faz a mesma distinção (p. 39 e 40) e chama de bijetora a função que é ao mesmo tempo total, injetora e sobrejetora (p. 41).
Por que isso volta na aula de autômatos
No Menezes, a função de transição de um AFD é uma função parcial (p. 33). Por isso uma tabela de transições com lacunas ainda é um AFD válido para ele: se a transição não existe, o autômato para e rejeita. Os slides escrevem sem dizer se é parcial, e o exercício 3 da aula 04 tem lacunas. Pelo Menezes, está tudo certo.
Mais propriedades de relações (Menezes, Definições 1.4 a 1.6, p. 8 e 9)
Além de reflexiva, simétrica e transitiva, o Menezes define:
- Antissimétrica: se e , então . Exemplo: em .
- Relação de ordem parcial: reflexiva, antissimétrica e transitiva. Exemplo: entre subconjuntos.
- Ordem total: ordem parcial em que quaisquer dois elementos são comparáveis. Exemplo: em .
Simétrica e antissimétrica não são opostas: uma relação pode não ser nenhuma das duas, e a identidade é as duas ao mesmo tempo (p. 9).
Uma relação de equivalência sempre particiona o conjunto. O exemplo do Menezes (Exemplo 5, p. 9): “ter o mesmo resto na divisão por 2” divide em pares e ímpares.
Fecho de uma relação, do jeito do Menezes (Definições 1.7 e 1.8, p. 10)
Fecho de em relação a um conjunto de propriedades é a menor relação que contém e satisfaz . O fecho transitivo é construído por regras:
- todo par de está em ;
- se e , então ;
- nada mais está em .
E .
Grafo como relação (Menezes, Exemplo 6, p. 10)
Arestas em . O fecho reflexivo e transitivo acrescenta os laços e os “atalhos” . Resultado (conferido por programa): .
Leitura: quer dizer “existe um caminho de até ”. É exatamente o que um autômato faz ao ir de um estado a outro lendo uma palavra.
Cardinalidade e conjuntos infinitos
| Resultado | Ideia | Fonte |
|---|---|---|
| Um conjunto é infinito se tem bijeção com um subconjunto próprio de si mesmo | com | Menezes Def. 1.13 (p. 13); Ramos Ex. 1.57 (p. 55) |
| é contável | se , se (não negativos vão para os pares, negativos para os ímpares) | Menezes Ex. 9 e 10 (p. 12 e 13) |
| e são enumeráveis | percorrer a tabela de pares em diagonais | Ramos Ex. 1.54 (p. 52 e 53) |
| não é enumerável | argumento da diagonal: dada qualquer lista de reais entre 0 e 1, monta-se um número que difere do -ésimo na -ésima casa decimal | Ramos Ex. 1.55 (p. 53 e 54) |
| (Teorema de Cantor) | supondo uma bijeção , o conjunto não pode ser imagem de ninguém | Ramos Teorema 1.3 (p. 55) |
| Subconjunto e união de enumeráveis são enumeráveis | intercalar as duas listas | Ramos Teoremas 1.4 e 1.5 (p. 55 e 56) |
Ligação com linguagens
Pelo Teorema de Cantor, . O Ramos observa que é não enumerável (p. 54). Como é enumerável, o conjunto de todas as linguagens sobre é não enumerável, enquanto o conjunto de todas as gramáticas (textos finitos) é enumerável. Conclusão: existem linguagens que nenhuma gramática descreve.
Conjunto fechado em relação a uma operação (Ramos, p. 37)
Um conjunto é fechado para uma operação quando aplicar a operação a elementos dele sempre dá um elemento dele. é fechado para subtração; não é (). Essa ideia volta nas propriedades de fechamento das linguagens regulares (ver 08 - Tópicos Complementares dos Livros).
Técnicas de demonstração (Menezes 1.4, p. 16 a 21; Ramos 1.6, p. 47 a 51)
As provas das aulas 04 a 07 (T-chapéu, equivalência AFD/AFND) usam essas técnicas, então vale revisar:
| Técnica | Como funciona | Exemplo dos livros |
|---|---|---|
| Direta | supõe a hipótese e chega na tese | (Menezes Ex. 14) |
| Contraposição | prova no lugar de | vira “se , então ”, que se testa com 0, 1 e 2 (Menezes Ex. 15) |
| Absurdo | supõe a hipótese e a negação da tese e chega a uma contradição | 0 é o único neutro da adição (Menezes Ex. 16); é irracional (Ramos Ex. 1.48) |
| Indução | base + passo | (Menezes Ex. 17) |
Exercício 1.18 do Menezes: onde está o erro nesta "prova por indução"?
A “prova” diz: se em um grupo de torcedores pelo menos um é gremista, todos são. O passo pega dois subgrupos de tamanho que se sobrepõem.
Minha resposta: o passo de indução falha de para . Com dois torcedores , os subgrupos de tamanho 1 são e , que não se sobrepõem, então nada liga o gremista de um grupo ao outro. Como o passo precisa valer para todo , a indução inteira desaba. Lição: o passo de indução tem que funcionar também para os valores pequenos.
Exercícios extras do Menezes (seção 1.6, p. 27 a 30)
1.6: dê uma relação que não é simétrica nem antissimétrica, e uma que é as duas coisas
Minha resposta: em , não é simétrica (falta ) nem antissimétrica ( e com ). Conferido por programa. A relação identidade é simétrica e antissimétrica.
1.7: fecho transitivo e fecho transitivo e reflexivo de
Minha resposta (conferida por programa): de e sai . Então . Em , é igual, porque os laços já estão todos lá.
1.10: o conjunto vazio é relação, função parcial ou função?
Minha resposta: é relação (subconjunto de qualquer ) e função parcial (nenhum elemento tem duas imagens). É função total só se o domínio também for vazio; caso contrário algum elemento fica sem imagem.
Para aprofundar nos livros
Onde ler (páginas das edições da sua pasta)
- Menezes (3ª ed.): 1.2 Conjuntos, Relações e Funções, p. 5 a 13 (inclui fecho e cardinalidade); 1.4 Técnicas de Demonstração, p. 16 a 21; exercícios 1.2 a 1.18, p. 27 a 30.
- Ramos, José Neto e Vega: 1.1 Conjuntos, p. 31 a 35 (inclui partição e De Morgan); 1.2 Relações, p. 35 a 38; 1.3 Funções, p. 38 a 42; 1.6 Teoremas e Demonstrações, p. 47 a 51; 1.7 Conjuntos Enumeráveis, p. 51 a 56. O autor também publica slides do capítulo 1 no site dele.
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